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Raging Loop: onde lobisomens e deuses antigos se encontram

por Marina M.
Publicado em Atualizado em 10 minuto(s) de leitura
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Assassinatos, folclore e um culto religioso fanático: esses são alguns dos elementos que compõem a visual novel Raging Loop. Lançado pela desenvolvedora japonesa KEMCO em dezembro de 2019, ele está disponível para computador, PlayStation 4 e Nintendo Switch. As línguas disponíveis são inglês e japonês.

Raging Loop

Como o próprio nome sugere, visual novel é um gênero baseado em leitura. Aqui, ela é acompanhada por ilustrações, escolhas a serem feitas pelo jogador e uma grande carga de dublagem. Não é o gênero de jogos mais popular, mas, quando bem executado, é como um livro que ganha vida e sacode o leitor pelos ombros. Desde o tutorial, Raging Loop deixa claro que seu conteúdo é longo – precisei de 24 horas de jogo para completá-lo. E não vou mentir… É uma experiência e tanto!

História

Depois do término conturbado de um namoro, o universitário Haruaki Fusaishi resolve subir em sua moto para uma viagem sem rumo. Após se perder por várias horas e procurar indicações de onde poderia descansar durante a noite, ele sofre um acidente que o deixa próximo de Yasumizu, um vilarejo minúsculo e um tanto hostil com forasteiros. Mesmo a bela e jovem Chiemi Serizawa, que o ajuda durante a noite, parece querer que ele vá embora logo. Quando ele está prestes a partir, cai a névoa mística sobre a vila, e ele se vê preso em uma trama de superstições e morte.

Raging Loop

Por razões sobrenaturais, logo aprendemos que não é possível abandonar Yasumizu após o aparecimento da névoa. É necessário banhar-se, abrigar-se individualmente e dormir, sob pena de morte sobrenatural. Além disso, todos precisam participar do Banquete. Como proposto em jogos como Town Of Salem, a dinâmica é simples: de noite os lobos, cidadãos corrompidos pela névoa, matam um dos humanos; de dia, todos se reúnem para enforcar aquele que acreditam ser o traidor disfarçado de humano. Os lobos precisam fingir ser confiáveis, e os humanos precisam lutar para desmascará-los e enforcar os verdadeiros culpados.

Raging Loop

Existem elementos sobrenaturais que obrigam tais regras a serem cumpridas. Além disso, para ajudar os humanos a combaterem os lobos, são distribuídos alguns papéis em segredo: o corvo consegue saber se alguém enforcado era humano ou lobo; a cobra consegue desvendar o papel de uma pessoa por noite; os macacos são dois, e sabem suas recíprocas identidades, e daí em diante. Assim, Fusaishi se vê em meio a intrigas e conspirações místicas, sem entender ao certo o que leva pessoas boas a aceitarem participar de uma dinâmica tão cruel.

Um dos fatores que favorece o enredo, sem dúvidas, é o fato de que ele orbita em torno de poucos personagens. Conforme a história avança, são apresentados diversos mistérios ligados a cada um dos habitantes do vilarejo, e suas personalidades carismáticas fazem com que nos importemos com seus destinos e fiquemos curiosos acerca de suas escolhas e tragédias pessoais. A maioria dos habitantes de Yasumizu tem algo a esconder, e conviver com eles é uma parte divertida de Raging Loop.

Raging Loop

Entretanto, é preciso mencionar que às vezes a escrita é arrastada, e existem momentos de exposição e recapitulação que se mostram cansativos. A aura de mistério que envolve o vilarejo mesmo antes dos assassinatos acontecerem já é cativante o suficiente para prender os leitores, mas para quem gosta da ação desde o início, pode demorar um pouco para se ver envolvido com a história.

Algumas das discussões do Banquete sobre quem será enforcado às vezes demoram muito, ou mesmo diálogos simples são entremeados com longas linhas de raciocínio do protagonista. Particularmente gosto de visual novels detalhadas, mas acredito que o título teria a ganhar se fosse mais fluido, e não se preocupasse em expor e relembrar tantos detalhes.

Jogabilidade

Existe um fator importante que afeta tanto a jogabilidade quanto a narrativa: nosso protagonista, quando faz uma escolha errada, morre. Morrer implica poder refazer uma escolha, e por vezes concede uma chave que abrirá opções que estão trancadas no começo da narrativa. A trama é amplamente afetada por essa questão, já que Haruaki Fusaishi se vê preso ao Banquete num looping de morte e retorno ao início, carregando novas memórias para ajudá-lo a entender o que está ocorrendo.

Raging Loop

O jogo permite que todos os diálogos já vistos sejam pulados rapidamente, sendo possível também voltar exatamente no momento da escolha, o que colabora enormemente para não tornar a experiência repetitiva. Por um lado, o retorno pós-morte do protagonista acrescenta elementos interessantes à história, permitindo que ele descubra fatos cruciais e flerte com a loucura e o desespero. Por outro lado, Raging Loop é uma experiência bastante linear.

Já existe uma ordem de capítulos a ser percorrida, e no fim do jogo o máximo que pode ser feito é escolher a ordem em que algumas chaves serão recolhidas. Algumas opções erradas resultam em mortes sem chaves, mas que mesmo assim podem trazer diálogos interessantes. Não existe nenhuma mecânica de investigação ou point & click: a interação do jogador é limitada a fazer escolhas. Para quem prefere visual novels mais ativas, é algo a ser levado em consideração.

Arte

Confesso que, a princípio, achei o design do jogo esquisito, principalmente porque o protagonista é feio. OK, talvez essa não seja a razão mais profissional para pensar assim, mas a questão é que com o passar do tempo comecei a admirar as escolhas artísticas do jogo, incluindo a composição dos personagens.

Raging Loop

Ao mesmo tempo que cada habitante da cidade tem características físicas muito diferentes, suas emoções também transparecem em ilustrações expressivas. Um fator incrível em Raging Loop e que me deixou encantadíssima é a dublagem: ela aparece em grande quantidade e é executada com excelência, ajudando a dar vida aos acontecimentos e aprofundando a imersão na história. A trilha sonora colabora igualmente, e assim como fiquei tensa e tomei sustos, também dei risada e me senti comovida nos momentos certos.

O Final (sem spoilers) e os Extras

Depois de terminar Raging Loop e passear pela Steam, é fato que o fim do jogo desagradou algumas pessoas a ponto delas decidirem negativar a recomendação. Realmente, eu não diria que o fechamento da história é seu ponto alto. A impressão que tenho é que os escritores decidiram por um final muito complicado e cheio de reviravoltas, com alguns saltos lógicos difíceis de acompanhar e coincidências difíceis de acreditar, deixando alguns pontos-chave totalmente em aberto. Portanto, se você é do tipo de pessoa que odeia quando o fim da obra não acompanha suas expectativas, eu diria para você baixá-las, mas ainda assim se aventurar pelo título.

Raging Loop

Quando você termina o jogo, são liberadas duas opções muito interessantes: histórias extras ligadas à trama e a opção de “revelação” no jogo. As histórias extras se passam tanto antes quanto depois do jogo, para dar algumas explicações que ficam em aberto ou mostrar o que aconteceu depois do fim oficial. Já o modo “revelações” permite que você veja cenas extras na história principal, quando já decifrou todos os mistérios da trama. São momentos no qual o protagonista não estava presente, ou os pensamentos dos demais personagens.

Enquanto as histórias paralelas são divertidas, o modo “revelações” me deixou intrigada. Acredito que haja muitas informações cruciais que deveriam estar no jogo principal, porque teriam feito o final parecer mais coerente e logicamente deduzido pelo protagonista. Não sei se a intenção dos desenvolvedores era de fazer com que a segunda run fosse relevante, mas contar com ela para que o jogador entenda completamente a história é uma decisão da qual discordo.

Afinal, vale a pena?

Confesso que Raging Loop me fez dormir tarde um número considerável de vezes, mesmo quando eu tinha que acordar cedo no dia seguinte. Fiquei curiosa e às vezes ficava divagando no trabalho sobre quais seriam as respostas para os mistérios de Yasumizu, ou quem seria o lobo daquela vez. Apesar de não apresentar interações inovadoras e ter algumas falhas de escrita, o título é consistente o suficiente para contar uma história empolgante e fazer com que nos importemos com os acontecimentos.

Raging Loop

A cópia de Raging Loop para análise foi cedida gentilmente pela KEMCO.


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